setembro 01, 2011

A Visita

"Eu não tinha ainda dormido, permanecendo de olhos fechados e pensamentos distantes. Mas alguma coisa me trouxera de volta ao quarto. Fumo. Cheiro de fumo, forte, perto. Abri meus olhos devagar. A princípio não vi nada, mas no canto escuro a fumaça saía como do invisível.
No instante seguinte, assim que meus olhos se acostumaram com a escuridão, o contorno de um homem sentado tornou-se nítido e imediatamente compreendi que fumaça vinha de seu cigarro.
- Você é real? Perguntei.
- Sim. Estou aqui. Ou posso ser apenas fruto da sua imaginação. Você decide.
- Por que está aqui?
- Por que você está aqui?
- Não se responde uma pergunta com outra.
Sentei na cama, apoiando-me no travesseiro. Fiquei um tempo pensando no que fazer. Fechei os olhos e murmurei “é um sonho”, tornei a abri-los e ele ainda estava lá, com sua risada debochada, com seu fumo. Não conseguia ver muito de seu rosto, entretanto, como se adivinhasse o que eu pensava, a lua saiu detrás de uma nuvem e o luar iluminou seu rosto.
Era impossível dizer a cor dos olhos, mas sua pele era morena, seu rosto não seria atraente não fosse a cicatriz que cortava seu lado esquerdo. Em qualquer outro, uma cicatriz arruinaria a perfeição de um rosto. Nele, combinado com o olhar, só podia ser uma coisa: perigo. E, ainda assim, proteção.
Instantaneamente levei minha mão ao rosto.  Ele percebeu e riu.
- Quem é você?
- Depende. Eu posso ser tudo. Posso ser esse luar, posso ser os primeiros raios de sol, o primeiro amor, a primeira maldade e a segunda. Veja você, posso ser muitas coisas...
- Você é Deus, então?
- Não para você, não é mesmo? Depois eu não quero ser Deus, muitas coisas para suportar...
- O que você está fazendo aqui?
- Você pensou em mim; aqui estou!
Eu pensei nele. Enquanto tentava dormir meus pensamentos visitaram inúmeras memórias e desejos. Em algum momento eu me encontrei com ele. É difícil dizer sobre o que eu estava pensando na hora. Talvez no choro do bebê da vizinha, talvez naquela vez em que vi o sol nascer e era um silêncio imenso, como se alguém tivesse fechado todas as janelas e portas.  E como seria se eu fechasse minhas janelas? Foi quando abri os olhos.
- Eu não pensei em você.  
- Bem, não posso me demorar muito, tenho muito que fazer, hein?
- Então vá!
- Não posso. Tenho uma mensagem para você.
- Vai me dizer que números jogar na loto?
Ele guardou o silêncio por alguns minutos, riu sem emitir som algum, apagou o cigarro na sola do sapato e olhou pra mim. Olhou como se me visse pela primeira vez; olhou-me como se fosse único.
- Fé. Fé que o sol se levantará todas as manhãs. Depois da chuva virá sempre o arco-íris. Fé, só isso, nas coisas simples da vida. Ás vezes a vista de nossas janelas nem sempre será bela.  Nesse caso, esperança é desejar que alguma coisa aconteça; fé é acreditar que acontecerá e coragem é fazer acontecer.
Enquanto eu tentava desvendar o porquê de suas palavras, ele se levantou, colocou a cadeira no lugar, cumprimentou-me e com um passo para dentro da penumbra, desapareceu. Eu nunca entendi muito a razão de sua visita. Ele me deixou com a sensação que tinha perdido o início do filme e agora tentava acompanhar... Apenas que o filme era minha vida – e eu sabia.
Fui deixada sozinha, apenas com memórias.
Tudo não passou de um sonho, eu me assegurei.  E de fato vim a sonhar com ele muitas vezes mais. Sempre tão vago. Eu já estava convencida de que era mesmo um sonho quando tempos depois, eu o vi através da multidão, com o mesmo chapéu, a mesma cicatriz.
Enquanto eu ia ao seu encontro, mil coisas passavam pela minha cabeça. Eu queria perguntar, queria gritar, como ele sabia que eu estava perdendo as esperanças?
- Não podia ter me dado os números da loto invés de torturar-me com divagações? – perguntei-lhe assim que nossos rostos se encontraram e pude sentir sua respiração. Sim, ele era real!
- Seria muito simples, não?
Certamente que sim. Aceitei, então, seu convite para uma caminhada. Nós andávamos em silêncio, como deveria ser. Todas as perguntas teriam suas respostas no tempo certo e não, necessariamente, nesse tempo.
Até que seus pés me levaram a beira de um lago. Eu olhei meu reflexo e percebi porque ele estava ali. Meu rosto, outrora jovem, estava velho. Velho, enrugado dos anos que vivi.  
Sim, haviam se passado tanto anos desde sua primeira visita. Eu era tão jovem!
- Veio me buscar?
- Precisamente.
- Devo dizer que segui seu conselho... Ele foi de grande ajuda quando mais precisei. É uma pena que tenha chegado meu fim.
- Não é uma pena. É uma benção. Ninguém aguentaria viver para sempre.
- E, ainda assim, você vive. Está tão bonito agora como no passado.
- Apenas meu coração envelhece devagar, pois recebi a tarefa de guiar os mais fracos e talvez, fortalecê-los.
- O que há no fim?
- Cada um tem o fim que merece. Não há como saber.
Eu estava pronta. Meu final havia chegado e posso dizer que foi feliz. Posso dizer, também, que apesar de todas as dores, eu fui o que tive que ser. E nada mais.
 Assim me lembro. "


Eu pensei em A visita tem um tempinho já e demorei a escrever.  Escrever para mim é um processo demorado, nunca direto no computador.  E, mesmo a versão final nunca é perfeita para mim.  Tenho certeza que daqui a anos vou ler esse conto e discordar em várias coisas. Já discordo agora.
Mas o texto está aí, uma vez que gastei meu tempo nele e prometi postar sempre coisas de minha autoria.
Ah sim, a frase “esperança é desejar que alguma coisa aconteça; fé é acreditar que acontecerá e coragem é fazer acontecer” não foi pensado por mim. Achei no site weheartit.com em inglês. Apenas traduzi.
Bisous.

2 comentários:

Nathália Carvalho disse...

Como sempre, meu orgulho!

Gabriel Batista disse...

Muito bom!