abril 27, 2016

Tive uma certa vontade de voltar a escrever no blog e não contar para ninguém. Nada como duas desilusões pra fazer você pensar na vida, não é mesmo? É verdade que estive muito feliz nesses últimos dois anos pra escrever. Desconfio que preciso estar triste. Não triste - talvez descontente? "não sou alegre, nem sou triste"
Eu também quero me abandonar. Quero desistir de mim. Quero ser a que agora abandona e não mais a abandonada. 


fevereiro 19, 2014

Não pensei num bom título



Acho que estou doente. Tenho estado feliz. É que estou amando. E sendo amada. Na hora certa. Não esqueci que não escrevo desde setembro de 2013 e que naquela data eu estava completamente insatisfeita. Sim, eu desisti dos cachos. Invento a mesma desculpa toda hora, mas é isso mesmo; sinto-me bem assim. Pensei em escrever todos os dias até este momento. A vontade crescia e eu só precisava da minha musa inspiradora – que nesse caso fui eu mesma. Cheguei em casa com vontade de compartilhar coisas boas com essa gente toda aí. E a vontade bateu em minha porta e eu abri, senhoras e senhores. É que levou tempo pra acostumar-me com a felicidade e fiquei esse tempo pulando num pé só. E toda essa baboseira sobre o amor e estar apaixonado fez sentido, mas continuo achando que essas cantigas de amigo ou esse romantismo à la Iracema não fazem parte da minha história. Doei roupas velhas e consegui um estágio. Ainda falta muita coisa, mas sinto que este momento de mim durará por bastante tempo. E quero que dure. E quero que nunca achem remédio pra essa doença. Não vou mentir e dizer que mudei completamente. É que acho impossível ser alguém e de repente ser outro... Mudanças nunca acontecem forçadas. Ou talvez sim. Estou lendo O Diário de Anne Frank e a cada página vejo como ela foi forçada a amadurecer. E também se apaixonou. “Amor, o que é o amor? Não creio que se possa realmente pôr em palavras. Amor é entender alguém, se importar, compartilhar as alegrias e as tristezas. Isso pode incluir o amor físico. Você compartilha alguma coisa, dá alguma coisa e recebe algo em troca, seja ou não casada, tenha ou não um filho. Perder a virtude não importa, desde que você saiba que, enquanto viver, terá ao lado alguém que a compreenda e que não precisa ser divido com ninguém mais.” Aí está meu tipo de declaração. Quem precisa de mais contos de fadas nesse mundo? Eu não. 


setembro 28, 2013

Ás vezes eu imagino-me sendo completamente diferente. Outra personalidade, outra voz, outros traços, outros amigos. Ás vezes eu contento-me comigo.  Minha personalidade, que ainda construo; minha voz, meus traços, meus poucos amigos.
Há dois meses, quando o alisamento já saia, resolvi parar de fazê-lo e assumir meus cachos. Não estava mais me encontrando debaixo dessa química. Porém, é um processo demorado e todo dia penso em desistir.  É preciso gostar-me todos os dias e nem sempre consigo.

Essas fotos são de quando tinha acabado de cortar o cabelo – um dos passos para livrar-me da química. Ainda fazia chapinha, mas agora resolvi que se dane, mesmo com duas texturas no cabelo. 




  

agosto 16, 2013

outras considerações....

Já escrevi por aqui o quanto eu fico incomodada com o modo como a maioria de nós vivemos: num só fôlego e que Deus nos ajude a voltar pra casa inteiros e estáveis, numa crônica chamada “Mal do século”; um pouco mal escrita e  incompleta, assumo.
Mas, o que me faz voltar nesse assunto é que estava lendo crônicas de Cecília Meireles, para o meu seminário de Literatura Brasileira sobre a autora, e me deparo com “Dias Perfeitos”. Nessa crônica, Cecília disserta sobre o que realmente são dias perfeitos, recheados de pessoas dispostas a ajudar com gestos gentis e descompromissados e no final do dia nossa casa está inteira, aguardando para nos aconchegar.
Sei que disse que a ansiedade excessiva (nem sei se posso mais chamar disso) é um mal do século 21, porém, devo retratar-me. Ficou claro para mim que é um mal da modernidade, logo, algo de histórico-social, muito mais complexo do que uma simples reação à vida cotidiana.
A Era Moderna tem suas raízes no advento do capitalismo, com novos conceitos de criação e surgimento da individualidade pregada pelo romantismo – o “eu” como centro de todas as coisas e angústias.
Outro acontecimento histórico importante foi a Primeira Guerra Mundial. Se antes dela os mais velhos estavam acostumados a transmitir suas experiências de vida para os mais jovens através de histórias ou provérbios moralistas, depois da guerra esse costumo cessou-se. Os que voltavam não mais possuíam algo para compartilhar. Como escreveu Walter Benjamim em “Experiência e Pobreza”, “uma geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos viu-se sem teto, numa paisagem diferente em tudo, exceto nas nuvens, e em cujo centro, num campo de forças correntes e explosões destruidoras, estava o frágil e minúsculo corpo humano”, não é de se espantar que voltassem sem experiências comunicáveis, impulsionando o que Benjamin chamou de pobreza de experiência: liberta-se de toda experiência externa e interna, inserindo-se na nova ordem criada pelo capitalismo.
É a banalização da vida, é “sacrificar a melhor parte de sua humanidade para realizar todos os prodígios da civilização” (BENJAMIN); é a vida na multidão.
Encontramo-nos pobres e rodeados de pessoas cansadas, “fatigadas com as complicações infinitas da vida diária e que veem a finalidade da vida apenas como o mais remoto ponto de fuga numa interminável perspectiva de meios, surge uma existência redentora que em cada dificuldade se basta a si mesma, do modo mais simples e ao mesmo tempo mais cômodo” (BENJAMIN).

E, agora, de uma forma mais completa, consigo entender esse fenômeno social que tanto irrita.  Desejar que todos sejam cordiais no dia a dia, como desejou Cecília em sua crônica, talvez seja um pouco ingênuo. Digo, desde que não seja resultado de alienação – só consigo pensar numa gente que sorri o tempo todo e ignora a podridão debaixo do tapete (lembrei-me do filme O Show de Truman, não sei porquê). Que seja a volta da nossa humanidade perdida.

leia "Dias Perfeitos", aqui e "Mal do Século", aqui!

Dias Perfeitos

Por Cecília Meireles 

   D

ias perfeitos são esses em que a Meteorologia afirma “vai chover” e chove mesmo: não os outros, quando se anda de capa e guarda-chuva para cá e para lá, até se perder um dos dois ou os dois juntos.
                Dias perfeitos são esses em que todos os relógios amanhecem certos: o do pulso, o da cozinha, o da igreja, o da Glória, o da Carioca, executando-se apenas os das relojoarias, pois a graça, destes, é marcarem todos horas diferentes.
                Dias perfeitos são esses em que os pneus não amanhecem vazios: as ruas acordam com dois ou três buracos consertados, pelo menos; os ônibus não vêm em cima de nós, buzinando e na contramão; e os sinais de cruzamento não estão enguiçados e os guardas estão no seu posto, sem conversa para as morenas nem para os colegas.
                Dias perfeitos são esses em que não cai botão nenhum da nossa roupa, ou se cair, uma pessoa amável aparecerá correndo, gastando o coração, para no-lo oferecer como quem oferece uma rosa, deplorando não dispor de linha e agulha para voltar a pô-lo no lugar.
                Dias perfeitos são esses em que ninguém pisa nos nossos sapatos, nem esbarra com uma cesta nas nossas meias, ou, se isso acontecer, pede milhões de desculpas, hábito que se vai perdendo com uma velocidade supervostokiana.
                Dias perfeitos são esses em que os guichês do Correio dispõem de gentis senhoritas e respeitáveis senhores que não estão fazendo crochê nem jogando xadrez sozinhos e não se aborrecem com o mísero pretendente à expedição de uma carta aérea, e até sabem quanto pesa a missiva e qual o seu destino, no mapa, e têm troco certo na gaveta, e não atiram os selos pelo ar como quem solta pombos da cartola. (Ah, esses são dias perfeitíssimos!...)
                Dias perfeitos são esses em que o motorista do carro de trás não buzina como um doido, os da direita e da esquerda não dançam quadrilha na nossa frente, e os velhotes não leem jornal no meio da rua, e as mocinhas que carregam à cabeça seus tabuleiros de penteados não resolvem atravessar, com suas perninhas trepadas em metro e meio de saltos, justamente por lugares por onde nem a bola de futebol doméstico se arrisca.
                Dias perfeitos são esses, em que se vai ao teatro, como mandam os amigos, e os atores sabem o que estão fazendo, e a vizinha de trás não conversa do prólogo ao epílogo sobre assuntos particulares, e a menina da frente não chupa, não mastiga e não assovia caramelos, e o cavalheiro da esquerda não pega no sono, resvalando insensivelmente para cima de nós o seu mavioso ronco.

                Dias perfeitos, esses em que voltamos para cara e a encontramos intacta, no mesmo lugar, e intactos estão os nossos tristes ossos, e podemos dormir em paz, tranquilos e feliz como se voltássemos apenas de um passeio pelos anéis de Saturno. 

julho 01, 2013

bits of my week

Não posso mentir: ainda sou completamente intimidada pela minha câmera. E incomodada.
Para não incomodar-me mais decidi seguir o exemplo de algumas blogueiras por aí, e fotografar pedaços da minha semana. Ou dia. Je ne sais pas. 












1. estudando teoria da literatura (ou quebrando a cabeça para entender Baudelaire e Benjamin)
2. todos que estão na lista até agora: Kafka on the Shore, de Murakami; O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder; Crônicas para Jovens e Vaga Música, de Cecília Meireles; Os Mortos e outros contos, de James Joyce; A Hora da Estrela, de Clarice Lispector; Para Ler com um Escritor, de Francine Prose; No Caminho de Swann, de Proust; O Diário de Anne Frank e Contos do Esconderijo, de Anne Frank; A Daughter's a Daughter, de Agatha Christie
3. uma nova velha foto no mural
4. lista de compras
5. vela feita por mim, seguindo esse blog.
6. o primeiro diário
7. david
8. jantar de aniversário do cunhado
9. festa junina na rua
10. carol
11. mari, clara e carol

junho 27, 2013

onze coisas sobre mim

Recebi um meme de Helena, do http://hassdc.wordpress.com/ e devo escrever onze coisas aleatórias sobre mim e responder onze perguntas. Eu deveria indicar onze blogueiras, porém, meu conhecimento não é tão vasto assim.

sobre mim: 
1. adoro coisas antigas
2. quero morar numa chácara
3. sei resolver um cubo mágico
4. sou dramática
5. odiava natação, mas não vejo a hora de voltar a fazer
6. adoro andar descalça
7. nunca sai do brésil, quiçá do sudeste
8. não bebo mais refrigerante
9. adoro acordar cedo
10. adoro dormir um pouco mais
11. sou feliz

Perguntas:
1. O que está achando dos protestos contra o aumento da passagem de ônibus?
Olha, acho justo. Não posso dizer que sou uma pessoa que sofre com o transporte, mas também não sou alienada e concordo que a tarifa é cara e não equivale ao serviço prestado. 
2. Qual foi o momento mais vergonhoso da sua vida?
Não saberia dizer, afinal são vinte e um anos haha mas o último momento foi num seminário de literatura: eu disse o plural de sermões  errado e a professora me corrigiu.
3. Seu filme favorito?
To aqui há dez minutos pensando... não cheguei a nenhuma conclusão sobre meu favorito. Tenho visto tanto filme ultimamente que poderia citar uns cinquenta dos que guardo no computador. 
4. O que faz para se divertir?
Passo um tempo com minha família ou saio com amigos. Para me divertir sozinha, leio algum livrou ou assisto algum filme. 
5. O que te agrada mais em ter um blog?
Poder ter um espaço para falar todas as minhas asneiras. e as não asneiras. 
6. Existe algo que muitos dizem que “não existe”, mas você acredita? Tipo unicórnios, dragões ou fantasmas.
Hm, acho que não acredito em nada tão inacreditável assim. Depois, sempre digo: há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. 
7. Já conheceu ao vivo alguém da internet?
Yep. Até namorei com um haha
8. Existe algum livro que você leu e pretende ler para os seus filhos?
O Pequeno Príncipe e os gibis da Turma da Mônica
9. Se você pudesse viver a história de um vídeo clipe, qual você escolheria?
Não sou muito de assistir vídeo clipes. 
10. Existe alguma banda ou cantor que você acha ruim, mas mesmo assim curte secretamente? Se sim, qual é?
Acho que não. 
11. Qual é o seu maior defeito?
A procrastinação. E a autocritica. 

Vou ser rebelde e não vou indicar ninguém. 
bisous

maio 30, 2013

sex and the city

Eu acabei de assistir toda a primeira temporada de Sex and the City e ainda estou um pouco maravilhada. Sempre assisti episódios aleatórios e ontem, depois de quatro episódios seguidos na televisão, resolvi baixar a primeira temporada sem medo de ser feliz.  Sem medo de adorar as neuroses da Carrie e sem medo de me reconhecer.  Acho que foi a melhor coisa que fiz essa semana, depois de uma desilusão amorosa. Super recomendo – estou super curada e prontíssima para outra. Para iludir-me outra vez, por que não? Desde que o durante seja bom.
Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte simplesmente se completam. Conseguem representar uma única mulher sendo várias. Sim, é um seriado de mulheres, mulherzinhas, sim, dirão os homens. E dirão justamente por não serem mulheres. Talvez elas sejam um pouco, não, muito dramáticas. Mas, em algum momento seremos todas, não é?
Melhor cena de todas foi Miranda falando para o pedreiro que a cantava gratuitamente na rua (estando ela três meses sem transar e já sem paciência): “Sim, você quer me dar o que eu quero? Eu quero transar! Transar, você pode me dar isso?” e o cara: “calma, senhora, eu sou casado...” colocou o rabo entre as pernas e calou-se. Clap clap clap


E o durante foi bom? Foi. Certo, talvez eu não esteja super curada; estou curada. Passível de recaída não justificável, por que não? Por que "por que não"? Eu também gostaria de saber. Oh, eu gostaria de saber, sim.
No momento, tudo o que eu quero é que chegue junho. Junho trará boas novas. Mesmo negativas ou até positivas. Só em junho saberei se posso morrer-me completamente e renascer do fundo de mim. E, então, estarei curada e tudo não passará de cenas em câmera lenta. Contando que sejam positivas. Se forem negativas, bem, morrerei de qualquer jeito: não há mesmo escapatória para a morte simbólica.
Sex and the City fez-me um ótimo trabalho. Ver Carrie vestindo um vestido provocador e mesmo assim querendo transar com Big. Ela estava apenas sendo provocadora, só dando uma amostra. Disse que resistiria. E não resistiu. Que mal tem? Mas eu tive que sorrir nessa cena. Porque era verdade verdadeira. Foi como se ela tivesse se vestido para um experimento. Que tipo de experimento? Humano? Ou ela simplesmente queria sentir-se provocadora, sem pecados, sem culpa, sem julgamento, sem sutiã.


Há dias ando querendo atualizar o blog, mas não tinha um assunto interessante. Abri e fechei a página repetidas vezes. E, ás vezes – sempre – pergunto-me como vou ser o que quero, como vou ser uma Carrie Bradshaw da vida, colunista do New York Times. Acho que terei que me reinventar sempre, sempre. Acabo de perceber como um assunto que é interessante a mim transformou-se em quatrocentos e cinquentas palavras. Que venham mais. Necessito.

maio 23, 2013

mal do século


Se no século dezenove o “mal do século” eram os ultras-românticos e as metáforas exageradas para manifestarem suas insatisfações com a realidade. Uma onda de pessimismo doentio que se traduzia no apego de certos valores decadentes, como o vício e o medo de amar. 
Mas, eu não estou aqui para falar desses loucos seguidores de Lorde Byron. Vamos falar do mal deste século: ansiedade e a falta de paciência pras coisas mais banais.
Já reparou que tem sempre alguém tentando atravessar a rua correndo? Fora ou na faixa. A pessoa dá uma corridinha e nem olha pro sinal. E, quando ele fecha segundos depois, penso: “idiota!”. A pessoa da uma corridinha e economiza segundos da vida. Os últimos segundos da vida dela, talvez, quem sabe.
Na fila do banco: a pessoa atrás de você cisma em parar milímetros de distância, como se cada metro percorrido fosse uma vitória. Eu teimo e sempre dou um espaço bem maior entre a pessoa da frente e eu.
Nas barcas: a embarcação diminui a velocidade e já começam a levantar. Acho que essas pessoas não sabem que dá tempo de todo mundo sair antes da barca fazer o caminho inverso. E que tem voltar? Dê umas gargalhadas de si mesmo. 
Sem contar o clássico caso da buzina acionadora de asas, né?
E o trocador do ônibus que começou a girar a roleta e meu corpo nem estava “dentro”? Como sou muito lerda antes de almoçar, não emiti nenhum som, mas bem que podia ter machucado meu quadril.
O que eu digo é, desacelerem! Olhem para o céu de vez em quando. O relógio é uma invenção humana: domine-o.
Olhei para o céu hoje e vi um grupo de urubus (ou não eram urubus?) sobrevoando uma parte da Praça XV. Olhei e vi um avião e em segundos imaginei a vida de cada um ali. E a minha vida indo embora ali.
Já tentou cozinhar um macarrão? Parece fácil, mas não é. Se o tira antes do tempo certo da água fervente, ele fica duro, não cozinha, horrível. É preciso paciência. Eu já cozinhei macarrão que ficou maravilhoso e outros que comi porque estava com fome. Assim é a vida. Nas coisas banais é que ela se faz.   
Tenho a impressão que outras pessoas já pensaram sobre isso. 

maio 17, 2013

venho

Na água quente meu
Corpo se dissolve,
Amolece e desaparece;

No escuro meu
Corpo some, perde-se
E desvanece;

No banho longo meu
Corpo renova, cria forma
E já sou eu que venho.






Era uma aula incompreensível (mais por eu estar atrasada na matéria) de teoria da literatura e meu notebook encontrava-se aberto; o desenho de um gato assustado e a reprodução dos meus dedos segurando o notebook somados ao desejo de tomar um banho no escuro causaram esse poema. Acrescentei meu último desenho porque faz sentido, é íntimo. 
Eu tenho esse hábito ocasional de tomar banho no escuro há um tempo e minha mãe acha estranho. Até que é. Explico-me citando uma reportagem que passou na televisão, que dizia que fazer isso exercitava o cérebro. Isso nunca é demais. 

maio 09, 2013

preciosidade

"De manhã cedo era sempre a mesma coisa renovada: acordar. O que era vagaroso, desdobrado, vasto. Vastamente ela abria os olhos.
Tinha quinze anos e não era bonita. Mas por dentro da magreza, a vastidão quase majestosa em que se movia como dentro de uma meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso. Que não  se espreguiçava, não se comprometia, não se contaminava. Que era intenso como uma joia. Ela.
Acordava antes de todos, pois ir à escola teria que pegar um ônibus e um bonde, o que lhe tomaria uma hora. O que lhe daria uma hora. De devaneio agudo como um crime. O vento da manhã violentando a janela e o rosto até que os lábios ficavam duros, gelados. Então ela sorria. Como se sorrir fosse em si um objetivo. Tudo isso aconteceria se tivesse a sorte  de "ninguém olhar para ela"." Clarice Lispector





 sempre, sempre Clarice. É planejar fotografar sua rotina e se deparar com um texto descrevendo exatamente o que você queria. Sou eu a cada linha.

maio 08, 2013

randomness

 Eu tinha uma câmera normal e mil vontades de me fotografar. Eu tenho uma câmera ótima e vários receios de me fotografar. Deixei-me intimidar por uma Nikon e um tripé. Não mais, não mais.






maio 02, 2013

007 cassino royale


Há alguns anos cismei de assistir todos os 23 filmes oficiais do 007. Feito isso, surgiu a vontade de ler os livros escritos por Ian Fleming, criador da série. Comprei o primeiro da série, Cassino Royale.
Assim como no filme, a missão de Bond é atrapalhar os planos de Le Chiffre de reaver o dinheiro do sindicato comunista num jogo de bacará, que ele havia perdido num negócio arriscado de prostituição na França.  James Bond conta com a ajuda da enigmática Vesper Lynd, do leal Mathis e o agente da CIA, Felix Leiter. 

Eu não gostei do jeito que a história foi escrita. Achei superficial e acelerada. Fiquei extremamente desapontada ao descobrir a verdadeira personalidade de Bond. Claro que eu não poderia esperar outra coisa de um autor dos anos cinquenta, que escreve sob a perspectiva de um homem: James Bond é um machista.  
Vesper Lynd é caracterizada como uma sentimental e, por isso, péssima para o trabalho de espionagem. Ela é reduzida a simples desejo e posse. E quando começa a ficar histérica, eis que: “Vesper continuou tentando justificar sua atitude até deixar Bond com vontade de lhe dar umas palmadas e lhe dizer para relaxar e contar a verdade”. Vou relaxar com palmadas, com certeza. 
Tudo bem que Vesper estava acabando com a paciência de todo mundo com esse joguinho de conto e não conto, mas vamos levar em conta que ela estava sofrendo de um conflito emocional interno e que Ian Fleming exagerou muito ao salientar essa característica feminina. Além de que, ela chorava pelos cantos o dia inteiro e fazia amor á noite como se nada estivesse acontecendo. Faz sentido? Nops.
Mas, nada, eu digo, nada justifica o seguinte trecho:
“Agora sabia com certeza que ela era uma fera na cama, mas a conquista de seu corpo, por causa do enigma que carregava, teria sempre o doce tempero do estupro. Fazer amor com Vesper seria sempre uma viagem empolgante sem o anticlímax da chegada. Ela iria se submeter a todas as intimidades da cama com avidez e prazer, mas sem jamais permitir que ela própria fosse possuída.”
Tive vontade de jogar o livro longe.  Meu único consolo é que James é torturado lindamente e fica um tempo broxa. 
Depois, quando você assiste ao filme que deu continuidade a esse, o Quantum of Solace, você pensa que Bond quer vingar a morte da amada Vesper. Só que não. É só orgulho ferido porque ela era agente dupla e resolve atacar “o braço que empunha o chicote e a arma”, a Smerch.
No filme Skyfall, Bond é alvejado por Moneypenny, a agente que o acompanha na tal missão. Quando eles se reencontram, no escritório da MI6, a postura de Bond é de que tudo está certo, beleza, é difícil acertar um tiro nessas circunstâncias mesmo, relaxa. Depois de ler Cassino Royale, pude perceber que isso é o que ele fala, mas aposto que pensa: você não serve pro campo, ufa, ainda bem que vai virar secretária, estou salvo de ser alvejado por uma mulher outra vez.  
Perdi total interesse nos outros livros da série. Vou continuar querendo ver os próximos filmes porque são ótimos filmes de ação (pelo menos os três últimos) e reduzir o personagem a puro objeto também.    

Caso alguém se interesse, comprei o livro pela estante virtual e como era exemplar novo, o preço foi igual a de uma livraria. 
Da editora BestBolso, tradução de Sylvio Gonçalves, 173 páginas. 

abril 26, 2013



Estou me perdendo para a procrastinação. Entrei num ócio vicioso sem vontade para produzir.
Isso explica o blog abandonado, o desenho esquecido. Poderia chamar de férias, mas não é. Acentua-se nela – como agora -, mas não é.
Sinto-me perdida. Cinco anos atrás possuía um plano infalível, até não ser. Agora apenas dou de ombros e aceito, por que não?
A incerteza me assusta. Esmaga-me e tortura-me. Essa e a outra.
Não lhe pus um feitiço porque você não me pertence. Outra vez dou de ombros. Meus olhos de ressaca sucumbem perante a insustentável leveza do meu ser. 

fevereiro 01, 2013

Morte Súbita

Esqueça Harry Potter. Esqueça primeiro beijo aos 15 anos. Esqueça relacionamentos felizes e pueris. Dessa vez, J. K. Rowling escreve sobre um outro mundo: real, palpável, adulto. 
Morte Súbida não é nada inocente, como era HP, e talvez eu goste disso muito mais. Os conflitos, aqui, parecem muito mais verdadeiros. 

foto: tumblr.com
A história começa com a morte de Barry Fairbrother. Sua morte súbita afeta a vida dos moradores da pequena Pagford e desenterra velhos segredos. A trama gira em torno de vinte personagens, com histórias entrelaçadas a partir da morte de Fairbrother e o medo de sua memória. 
Fairbrother era um membro muito estimado do conselho distrital de Pagford e a vacância criada com sua morte gera desconfiança e rivalidades; o conselho divide-se em dois grupos: aqueles à favor de Fields e os contra Fields.
O primeiro grupo, liderado pelos amigos do morto, acredita que manter Fields junto a Pagford melhoraria e traria benefícios aos seus moradores, de maioria baixa renda, viciados e criminosos. O segundo grupo acredita que manter Fields mancharia a boa reputação do distrito, de boa moral e ética. 
O grupo que conseguir eleger um representante para o conselho, na certa ganhará essa disputa. Para complicar,  mensagens comprometedoras estão aparecendo no site do conselho, assinadas pelo "o fantasma de Barry Fairbrother", revirando com a vida e confiança dos candidatos à eleição. 
É interessante perceber que nenhum relacionamento é saudável. Cada núcleo têm os mais diversos e comuns dramas: é a esposa infeliz, a esposa submissa, a esposa devota; o marido agressivo, o marido mentalmente desequilibrado, o marido viciado em trabalhar; o filho rebelde, o filho oprimido...
E, se espera ainda uma J. K. Rowling recatada, esqueça também. Há sexo, palavrões e má conduta.
 J. K. rebelde. No entanto, a sua prosa está lá, magicamente escrita pra te fazer dormir tarde e perder a hora na manhã seguinte. 

janeiro 16, 2013

imediações perigosas


Sei que não atualizo o blog há tempos.
Quando há nada para falar, é melhor não falar nada, não é mesmo?  



No final de 2012, no curso de cinema, concluímos a filmagem do curta-metragem, Imediações Perigosas.  Estamos na parte da edição e prestes a começar a filmar o documentário na semana que vem.   
O meu papel foi cuidar da produção.  Eu já tinha experiência em produzir outros dois eventos, mas um filme é bem diferente. Tirando a dor nas pernas por causa das escadas, o dia que eu tive que ficar em casa por causa do cansaço, a camisa rasgada, o queijo roubado e todos os outros casos valeu muito a pena e muitas risadas.  

A nossa história é sobre Edgar, um homem de 40 anos, que se encontra em decadência, até que um dia, entra em seu escritório, Pamela, uma mulher sexy e misteriosa, revelando um grande segredo do mundo político. Mais tarde, quando é chamado á uma cena de crime descobre que a vítima era a própria Pamela. Envolto no mistério de sua morte, Edgar mergulha no mundo do crime e dos escândalos políticos, não sabendo mais reconhecer o que é real e o que faz parte de seu delírio.    

















Como foi nosso primeiro filme houveram algumas falhas técnicas, mas nada que uma boa edição não resolva, porque, afinal, conseguimos um material muito bom. 

É isso, bisous :)